O Santander Tem a Melhor Faca do Mundo. E Está Usando para Cortar Manteiga.
O grupo espanhol tem parceria com a OpenAI e um banco digital cloud-native rodando em seis países. No Brasil — seu segundo maior mercado em lucro — o maior showcase de IA gera roteiros de conversa para assessores. Enquanto isso, a inadimplência em PMEs chegou a 5,9%.
Este é o quarto e último artigo da série sobre como os grandes bancos brasileiros estão enfrentando a transformação da IA. Leia o primeiro, o segundo e o terceiro.
Os números que parecem bons — mas o que eles escondem?
O Santander Brasil encerrou 2025 com lucro líquido gerencial de R$ 15,6 bilhões, alta de 12,6% sobre 2024, e registrou no quarto trimestre o maior lucro trimestral dos últimos quatro anos. O retorno sobre o patrimônio (ROE) chegou a 17,6%. Na comparação interna, são números sólidos. Na comparação setorial, eles revelam o gap.
O Itaú encerrou o mesmo ano com ROE de 24,4% — o melhor desde 2015. O Bradesco, em plena recuperação, já chegou a 15,2% no terceiro trimestre, superando o custo de capital seis meses antes do previsto. O próprio Santander reconhece que chegar a um ROE acima de 20% é uma meta — com prazo fixado para 2028. Ou seja, o banco que tem o melhor acesso a tecnologia de IA entre todos os da série está prometendo para daqui a dois anos o patamar de rentabilidade que o Itaú já opera hoje.
Atrás desse gap há uma história que não é de incompetência. É de uma distância estrutural entre o que o grupo global tem construído e o que o Brasil recebeu até aqui.
O que o grupo Santander realmente tem em IA
Para entender a ironia, é preciso entender o que existe fora do Brasil.
O grupo espanhol investiu 20 bilhões de euros em tecnologia e inteligência artificial na última década. Em agosto de 2025, fechou acordo com a OpenAI para disponibilizar o ChatGPT Enterprise a 15 mil colaboradores na Europa e nas Américas — com meta de chegar a 30 mil até o final do ano, 15% de toda a sua força de trabalho global. Os 6 mil desenvolvedores que já usam ferramentas de IA no grupo reportaram ganho de produtividade de 20% a 30% em algumas tarefas.
Mas o ativo mais revelador do grupo não é a parceria com a OpenAI. É o Openbank — e aqui é preciso fazer uma distinção que importa para quem acompanha o mercado financeiro brasileiro: não confundir com o Open Finance regulatório do Banco Central, que é o sistema de compartilhamento de dados entre instituições. O Openbank é outra coisa.
Relançado em 2017 com tecnologia própria construída do zero, o Openbank é o banco 100% digital do grupo Santander. Sem agências. Sem sistemas legados. Arquitetura cloud-native hospedada inteiramente em nuvem, com plataforma proprietária chamada Gravity — o equivalente funcional ao que o Nubank construiu entre 2013 e hoje. Hoje é o maior banco totalmente digital da Europa por volume de depósitos, com quase 20 bilhões de euros captados.
A expansão internacional é o dado mais eloquente. Desde 2020, o Openbank foi lançado na Alemanha, Portugal e Holanda. Em outubro de 2024, chegou aos Estados Unidos — e em apenas seis meses já havia superado 100 mil clientes e US$ 2 bilhões em depósitos, ritmo acima das projeções internas. No início de 2025, foi a vez do México. Em janeiro de 2026, o grupo formalizou a fusão das operações digitais e de financiamento ao consumo sob a marca Openbank, que passou a ser o nome de referência para todo o negócio digital da instituição em 26 países.
O Brasil, que em 2025 foi responsável pelo segundo maior lucro do grupo — 15,4% do resultado global, atrás apenas da Espanha — não está na lista.
O que o Santander Brasil faz com a faca mais afiada do mundo
A ferramenta de IA mais citada pelo Santander Brasil em 2025 foi o PitchMaker.
Lançado em maio de 2025 em parceria com a BRQ Digital Solutions e a AWS, o PitchMaker é um assistente de IA generativa voltado aos assessores de investimentos da área AAA do banco — a equipe que atende clientes com pelo menos R$ 250 mil investidos. O que ele faz: cruza perfil do cliente, carteira atual, histórico de interações e cenário de mercado para gerar, em 30 segundos, um roteiro de abordagem personalizado. Antes, esse trabalho tomava 35 minutos do assessor.
É útil? Sim. Mas não é nenhuma ciência de foguete. Honestamente as minhas provas de conceito criadas nos fins de semana entregam coisas mais complexas do que isso.
A arquitetura por trás revela a natureza da iniciativa: a plataforma roda no Amazon EKS, usa o Amazon Bedrock como motor de inferência — um serviço da AWS que oferece acesso a modelos de linguagem de terceiros como o Claude, da Anthropic, e o Llama, da Meta — e foi integrada aos sistemas do banco pela BRQ, consultoria de TI brasileira que presta serviços ao Santander há sete anos. Não há nenhum modelo proprietário (e (e não há nada de errado nisso — já abordamos isso no artigo do Bradesco). Mas não há aprendizado contínuo sobre comportamento financeiro dos clientes. Cada pitch gerado some — não retroalimenta nada. É, na essência, um ChatGPT corporativo com os dados do cliente injetados no prompt, rodando na infraestrutura de outra empresa. Aliás, menos do que isso. Como não se guarda o contexto, está mais para a Alexa, modelo pré-GPT — "Alexa, gere um resumo deste cliente pra mim".
O próprio CIO do Santander Brasil, Richard Silva, entregou o diagnóstico com precisão cirúrgica em entrevista à TI Inside: "O que não são óbvios são o foco e investimento que temos feito para levar à maturidade a gestão de dados como produto." É a linguagem de quem está construindo a fundação, não de quem colhe resultado. A plataforma agnóstica que o banco descreve — que usa AWS, Microsoft Azure e Google Gemini simultaneamente, com fine-tuning sobre modelos base de mercado — é exatamente o oposto da vantagem estrutural que o nuFormer representa para o Nubank.
Enquanto isso, o grupo tem a plataforma pronta, rodando em seis países, com tecnologia cloud-native proprietária e sem legado. E o Brasil — a joia da coroa em geração de lucro — recebe a ferramenta de automação de pitch.
O dado que expõe o tamanho da distância
A inadimplência do Santander Brasil em pequenas e médias empresas chegou a 5,9% no quarto trimestre de 2025 — alta de 1,4 ponto percentual em doze meses. Na carteira de pessoas físicas, os atrasos acima de 90 dias fecharam o ano em 4,6%. O NPL geral subiu de 3,2% para 3,7% no mesmo período.
Para entender por que esse número importa no contexto de IA: o Nubank, no mesmo período, reportou queda de 0,4 ponto percentual na inadimplência enquanto expandia a carteira de crédito e aumentava os limites — tudo suportado pelo nuFormer, o modelo Transformer treinado com dados de comportamento financeiro de 127 milhões de clientes. O motor de crédito do Nubank aprende em tempo real. O do Santander Brasil, segundo o próprio banco, ainda está em processo de "maturidade de gestão de dados".
O Santander até identificou o caminho. Em 2024, o vice-presidente de tecnologia confirmou ao Convergência Digital que o banco havia construído um modelo usando IA generativa para interpretar extratos de clientes via Open Finance e clusterizar perfis de comportamento. "Melhora muito o entendimento do perfil da pessoa e com isso estamos conseguindo fazer ofertas hiperpersonalizadas e muito assertivas", disse Luiz Bittencourt. É promissor. Mas é exatamente o tipo de dado que o Nubank tem desde 2013 — e que o Santander Brasil está descobrindo agora via regulação do Banco Central, não via dados proprietários acumulados ao longo de uma década.
O problema não é tecnológico. É de prioridade estratégica.
Existe uma distinção técnica que muda completamente a leitura desse cenário.
Há uma diferença entre ter acesso à melhor tecnologia do mundo e ter os dados que fazem essa tecnologia funcionar. O Santander tem o primeiro. Ainda está construindo o segundo.
Um modelo de linguagem de mercado — seja o GPT da OpenAI, o Claude da Anthropic ou qualquer LLM disponível no Amazon Bedrock — é uma ferramenta genérica de altíssima qualidade. Ele entende linguagem, raciocina, gera texto. Mas não sabe nada sobre o comportamento financeiro específico dos 69 milhões de clientes do Santander Brasil. Para que esse modelo entenda que um determinado perfil de gasto em outubro tende a gerar inadimplência em dezembro entre clientes de PMEs de determinado setor, ele precisaria ser treinado com dados transacionais reais, em volume e ao longo do tempo. Isso é o que o nuFormer faz. Isso é o que a Bridge do Bradesco começou a tentar fazer em crédito em 2024. Isso é o que o Santander Brasil ainda está na fase de "gerir dados como produto" para eventualmente fazer.
A estratégia declarada pelo próprio banco para chegar ao ROE acima de 20% até 2028 está ancorada na "migração de sistemas legados para a nuvem" — o que é infraestrutura, não inteligência. É o pré-requisito para o jogo, não o jogo em si.
E o Openbank — a plataforma que já resolveu esse problema do outro lado do Atlântico — segue esperando vez no Brasil. :h
Por que o Brasil ficou para depois
Não há uma resposta pública e definitiva para isso. O que os dados permitem inferir é uma combinação de fatores.
O Brasil já era o segundo maior gerador de lucro do grupo antes do Openbank existir na forma atual. Uma subsidiária que entrega R$ 15,6 bilhões de lucro por ano com o modelo existente não gera a mesma pressão por reinvenção que um mercado novo. Nos EUA e no México, o Openbank não foi lançado para entrar — o Santander já opera como banco tradicional nos dois países. Foi lançado para competir com os neobanks locais, Chime, SoFi e Nu México, sem canibalizar a operação existente. No Brasil, essa pressão não existe da mesma forma: há 1.695 agências, décadas de relacionamento, e uma base de 69 milhões de clientes que já geram resultado. Ao mesmo tempo, eles não querem mexer na "vaca leiteira" do grupo. Não é o melhor resultado, mas é um baita resultado. Suficiente para pagar bônus para todo mundo.
O grupo também está em processo de fusão do Santander Consumer Finance com o Openbank na Europa, consolidação que consumiu atenção executiva e capacidade de execução ao longo de 2025 e início de 2026. E a promessa de Ana Botín ao mercado é clara: sem grandes aquisições nos próximos dois anos, foco em execução, ROE acima de 20 bilhões de euros globais até 2028. O Brasil está na conta como gerador, não como laboratório.
O resultado prático é que o banco que tem a faca mais afiada entre todos os da série continua usando-a onde já há manteiga — enquanto o Nubank está cortando pedra.
O fechamento da série
Olhando os quatro bancos juntos, o que esta série revelou é que a IA no setor financeiro brasileiro não é uma corrida de velocidade. É uma corrida de profundidade.
O Nubank construiu inteligência proprietária desde o primeiro dia e colhe isso em inadimplência controlada, carteira expandida e flywheel de dados que se autoalimenta. O Itaú chegou ao mesmo destino por um caminho mais longo — 1.800 modelos em produção, R$ 11,7 bilhões investidos em tecnologia em 2025, modernização de plataforma que já está 70% concluída — e entrega o ROE mais alto do setor como prova de que bancão e sofisticação tecnológica não são contraditórios. O Bradesco levou 9 anos para levar a IA onde ela realmente importa, mas chegou lá: a Bridge está finalmente rodando em modelos de risco de crédito, e o tempo de criação desses modelos caiu 95%. O Santander tem o melhor acesso ao ecossistema global de IA entre todos — e ainda está construindo a base de dados que permitiria usar esse acesso com profundidade real no mercado que mais importa para ele na América Latina.
A ironia final é que a tecnologia não é o gargalo do Santander Brasil. A prioridade estratégica é.
E enquanto o grupo decide quando o Brasil merece o Openbank, startups brasileiras já entregam em produção o que o Santander promete para 2028: plataformas que conectam dados transacionais reais, aprendem com cada interação e democratizam inteligência analítica para toda a organização — sem depender de consultoras e sem enviar dados para fora do ambiente do cliente. A distância entre o que está disponível no mercado hoje e o que o segundo maior banco privado do Brasil ainda classifica como meta futura é, ela mesma, um dado sobre onde estão as oportunidades.
Este é o quarto artigo da série sobre IA nos grandes bancos brasileiros. Se você ainda não assina a newsletter do angulo.ai, a próxima edição traz análise técnica comparativa dos modelos de dados adotados por cada banco — e o que cada abordagem significa para quem constrói produtos financeiros com IA.
Referências
- Santander Brasil FY2025 — Lucro R$ 15,6 bi, ROAE 17,6%, carteira R$ 708 bi: FEEB-PR / Infomoney (fev/2026)
- Inadimplência Santander 4T25 — NPL 3,7%, PMEs 5,9%, PF 4,6%: Mercado e Consumo / CircuitoMT (fev/2026)
- Santander Brasil: segundo maior lucro do grupo, 15,4% do resultado global — Contraf-CUT / Sindicato dos Bancários (fev/2026)
- Santander fecha 735 agências em 2025 — de 2.430 para 1.695: Contraf-CUT (fev/2026)
- Santander + OpenAI: ChatGPT Enterprise para 15 mil colaboradores, meta de 30 mil — TI Inside (ago/2025)
- Openbank: maior banco digital da Europa, quase €20 bi em depósitos — Santander.com (2025)
- Openbank EUA: lançamento out/2024, 100 mil clientes, US$ 2 bi em depósitos em 6 meses — PAN Finance (mai/2025)
- Openbank México: início de operações em 2025 — Santander.com (2025)
- Fusão Openbank + Santander Consumer Finance, jan/2026 — Noticias Bancarias (nov/2025)
- Santander: meta ROE acima de 20% até 2028, migração de legado para nuvem — Seu Dinheiro (fev/2026)
- PitchMaker: parceria Santander + BRQ + AWS Bedrock, 35 min → 30 seg — BRQ Digital / Inforchannel / IT Forum (mai/2025)
- Richard Silva, CIO Santander: "levar à maturidade a gestão de dados como produto" — TI Inside (fev/2026)
- Luiz Bittencourt, VP Tecnologia Santander: estratégia agnóstica, AWS + Azure + Gemini — Convergência Digital (jul/2024)
- Santander investe €50 mi em IA generativa, Brasil entre os 3 hubs tecnológicos globais — Convergência Digital (jul/2024)
- Santander: plano 2026-2028, meta €1 bi em valor gerado por IA — Mercado e Consumo (fev/2026)
- Grupo Santander: lucro global recorde €14,1 bi em 2025 — Contraf-CUT (fev/2026)