O Itaú Não Está Perdendo para o Nubank. Está Jogando Outro Jogo.

O Itaú registrou R$ 46,8 bilhões de lucro em 2025 — o maior da história bancária brasileira. Vélez está rindo, mas Setúbal e Salles não estão chorando. Longe disso. E o verdadeiro concorrente do Itaú não é quem você pensa.

O Itaú Não Está Perdendo para o Nubank. Está Jogando Outro Jogo.

Lucro bilionário: R$ 46,8 bilhões de lucro. O maior da história bancária brasileira. Vélez está rindo — mas Setúbal e Salles não estão chorando. Longe disso.


Nesta semana falamos do Nubank (veja a matéria completa aqui). Do nuFormer, do flywheel de dados, dos R$ 45 bilhões que chegam em 2026. É uma história extraordinária de tecnologia e visão.

Mas existe um número que ficou mal iluminado na tabela que publicamos. Um número que merece um artigo inteiro para ser lido com atenção. R$ 46,8 bilhões. (sim, já é a terceira vez que cito este número. Ele é realmente espantoso)

Esse é o lucro do Itaú em 2025. O maior já registrado por um banco na história do Brasil, com crescimento de 13% sobre o ano anterior e ROE (Return on Equity) acima de 24% no quarto trimestre — o melhor patamar desde 2015.

David Vélez tem 20% do capital do Nubank e 75% do poder de voto. É o fundador, o arquiteto, o rosto da empresa. Roberto Egydio Setúbal e Pedro Moreira Salles co-presidem o conselho do Itaú — duas famílias, duas heranças, um pacto construído ao longo de décadas. São estruturas completamente diferentes de poder e de propriedade.

Mas o resultado de 2025 diz uma coisa sobre os dois lados: ninguém está chorando.


Os números que o hype não conta

Existe uma narrativa dominante no ecossistema de tecnologia — e eu contribuo para ela — que coloca o Nubank como o futuro e os bancões como o passado. É uma narrativa sedutora. Mas quando você abre o balanço do Itaú, ela encontra resistência nos fatos.

A carteira de crédito do Itaú chegou a R$ 1,49 trilhão em 2025, com inadimplência de 1,9% pelo quarto trimestre consecutivo — abaixo de 2%, enquanto o banco expandia em segmentos de maior risco como PMEs e pessoas físicas. Manter inadimplência abaixo de 2% enquanto cresce a carteira não é sorte. É sofisticação de modelo de risco construída ao longo de décadas.

O banco administra, gere e custodia cerca de R$ 4,1 trilhões em recursos. Para ter uma referência: o PIB do Brasil em 2025 foi de aproximadamente R$ 12 trilhões. O Itaú custodia um terço do PIB brasileiro.

O Nubank tem 127 milhões de clientes na América Latina e um modelo de IA extraordinário. Mas ainda não custodia R$ 4,1 trilhões. E chegar lá não é uma questão de algoritmo — é uma questão de décadas de confiança institucional construída transação a transação, relacionamento a relacionamento.


A IA do Itaú não é enfeite

Seria fácil, e incorreto, tratar a estratégia de IA do Itaú como cosmética. Como um bancão que comprou uma assinatura do ChatGPT e colocou no PowerPoint do conselho. Não é isso.

O banco encerrou 2025 com mais de 1.800 modelos de IA em utilização, 500 cientistas de dados dedicados e crescimento de 141% no volume de iniciativas de IA generativa em produção em relação ao ano anterior. O investimento total em tecnologia foi de R$ 11,7 bilhões em 2025 — alta de 18% sobre os R$ 10 bilhões de 2024.

Entre 2018 e 2025, o banco aumentou em 2.099% o volume de implantações tecnológicas, enquanto o custo de infraestrutura caiu 25%. Esse número — 2.099% — é o tipo de dado que não aparece nas conversas sobre fintechs e bancões, porque quebra a narrativa simples.

A plataforma Inteligência Itaú não é um chatbot. É uma arquitetura multiagentes capaz de executar desde tarefas simples como Pix por voz no WhatsApp até assessoria de investimentos personalizada — e aprende continuamente com cada interação.

Isso é produto. Produto funcionando, em escala, para dezenas de milhões de clientes.


Então onde está a diferença real?

A diferença entre o Itaú e o Nubank não é de competência. É de origem.

O Nubank nasceu orientado a dados. Cada linha de código foi escrita para que o dado fosse cidadão de primeira classe. O nuFormer — modelo Transformer treinado exclusivamente com comportamento financeiro de 127 milhões de clientes — só existe porque a fundação tecnológica foi construída assim desde 2013.

O Itaú chegou à mesma direção por um caminho diferente e mais longo. Modernizou 70% de sua plataforma tecnológica até agora, com meta de 100% até 2028. São dois anos de distância entre o Itaú e sua própria versão completa.

Mas aqui está o ponto que raramente é verbalizado: o Itaú e o Nubank não estão, hoje, brigando pelo mesmo cliente.

O Nubank domina o brasileiro que quer simplicidade, sem tarifa, no celular. O Itaú domina o empresário médio, o investidor de alta renda, o cliente de private banking que custodia patrimônio, a empresa que precisa de estruturação financeira complexa. São mercados que se tocam nas bordas — mas não se sobrepõem no núcleo, ainda.


O verdadeiro campo de batalha do Itaú

Se você quer entender onde o Itaú sente pressão de verdade, não olhe para o Nubank. Olhe para o BTG.

O BTG Pactual encerrou 2025 com lucro de R$ 16,7 bilhões — crescimento de 35% sobre 2024 — e ROAE de 26,9%, superior ao do Itaú. Com R$ 2,5 trilhões em ativos sob gestão e administração, o banco captou R$ 354 bilhões líquidos no ano, avançando consistentemente no segmento de alta renda e wealth management.

O BTG está subindo a escada que o Itaú construiu. E está subindo rápido.

Esse é o concorrente que tira o sono de Setúbal e Salles — não Vélez. O Nubank pode chegar lá um dia. O BTG já está no mesmo andar.


O que os números dizem de verdade

Existe uma leitura possível do mercado que coloca o Nubank como vencedor porque vale o mesmo que o Itaú em bolsa com três vezes menos lucro. O mercado está precificando crescimento futuro, flywheel de dados, expansão para novos segmentos.

Mas existe outra leitura igualmente válida: o Itaú é uma máquina centenária operando no pico de sua forma. ROE de 24,4%, inadimplência controlada, R$ 4,1 trilhões sob custódia, tecnologia avançando a 2.099% de ritmo de implantação. Isso não são números de uma empresa em declínio e sim de uma empresa que aprendeu a correr.

Vélez construiu algo extraordinário. Mas Setúbal e Salles nunca pararam de construir.

A pergunta que nenhum dos dois precisa responder hoje — mas que vai definir a próxima década — é quando esses dois mundos vão se colidir de verdade. Quando o Nubank chegar no cliente que o Itaú mais protege. Quando o flywheel de dados do nuFormer começar a rodar no segmento que gera o grosso do lucro bancário brasileiro.

Essa colisão ainda não aconteceu. Mas ela vai acontecer.

Na próxima edição da série, a história fica mais irônica: vamos falar de um banco que lançou IA antes de todo mundo — em 2016, quatro anos antes do ChatGPT existir — e ainda não transformou isso em vantagem no que mais importa. O Bradesco e o enigma da BIA.


Referências

  • Itaú FY2025 Results — Lucro líquido recorrente de R$ 46,83 bilhões, ROE de 24,4% no 4T25: Infomoney / Carteira Valorizada (fev/2026)
  • Itaú: carteira de crédito R$ 1,49 tri e inadimplência 1,9% — Gazeta Mercantil / FEEB-PR (fev/2026)
  • Itaú: R$ 4,1 trilhões sob custódia — Comunicado oficial Milton Maluhy Filho, CEO Itaú (fev/2026)
  • Itaú: 1.800 modelos de IA, 500 cientistas de dados, crescimento de 141% em GenAI — TI Inside: "Itaú coloca 150 soluções de GenAI em produção" (jan/2026)
  • Itaú: R$ 11,7 bilhões em tecnologia em 2025 — Mobile Time / Let's Money (mar/2026)
  • Itaú: 2.099% de crescimento em implantações tecnológicas — NeoFeed (set/2025)
  • Itaú: 70% de plataforma modernizada, meta 100% até 2028 — NeoFeed (set/2025)
  • Inteligência Itaú: arquitetura multiagentes, Pix no WhatsApp, assessoria de investimentos — Itaú Tech / Medium (out/2025)
  • BTG Pactual: lucro R$ 16,7 bi em 2025, crescimento de 35%, ROAE 26,9% — Seu Dinheiro / BM&C News (fev/2026)
  • BTG Pactual: R$ 2,5 trilhões em AuM, captação líquida de R$ 354 bi — NeoFeed / Enfoque (fev/2026)
  • David Vélez: ~20% do capital do Nubank, 75% do poder de voto — Bloomberg Línea / Inteligência Financeira (ago/2024)
  • Estrutura acionária do Itaú: IUPAR, Itaúsa, famílias Setubal e Moreira Salles — Brazil Journal / SEC Form 6-K Itaú (2025)

Este é o segundo artigo de uma série de quatro sobre como os grandes bancos brasileiros estão enfrentando a transformação da IA. Leia o primeiro aqui.

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